
Hoje me deu tristeza,
sofri três tipos de medo
acrescido do fato irreversível:
não sou mais jovem.
Discuti política, feminismo,
a pertinência da reforma penal,
mas ao fim dos assuntos
tirava do bolso meu caquinho de espelho
e enchia os olhos de lágrimas:não sou mais jovem.
As ciências não me deram socorro,
não tenho por definitivo consolo
o respeito dos moços.
Fui no Livro Sagrado
buscar perdão pra minha carne soberba
e lá estava escrito:
"Foi pela fé que também Sara, apesar da idade avançada,
se tornou capaz de ter uma descendência..."
Se alguém me fixasse, insisti ainda,
num quadro, numa poesia...
e fossem objetos de beleza os meus músculos frouxos...
Mas não quero.
Exijo a sorte comum das mulheres nos tanques,
das que jamais verão seu nome impresso e no entanto
sustentam os pilares do mundo,
porque mesmo viúvas dignas não recusam casamento,
antes acham sexo agradável,
condição para a normal alegria de amarrar uma tira no cabelo
e varrer a casa de manhã.
Uma tal esperança imploro a Deus.
Adelia Prado
sexta-feira, 11 de junho de 2010
Dolores
segunda-feira, 10 de maio de 2010
leve como uma brisa ou ...
Sou como você me vê.
Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania,
Depende de quando e como você me vê passar.
Clarice Lispector
terça-feira, 16 de março de 2010
Canção a caminho do Céu
Foram montanhas? foram mares?
foram os números...? - não sei.
Por muitas coisas singulares,
não te encontrei
E te esperava, e te chamava,
e entre os caminhos me perdi.
Foi nuvem negra? maré brava?
E era por ti!
As mãos que trago, as mãos são estas.
Elas sozinhas te dirão
se vem de mortes ou de festas
meu coração.
Tal como sou, não te convido
a ires para onde eu for.
Tudo que tenho é haver sofrido
pelo meu sonho, alto e perdido,
- e o encantamento arrependido
do meu amor.Canção a caminho do Céu
Cecília Meireles
terça-feira, 9 de março de 2010
Eu
Sou uma mulher madura
Que às vezes anda de balanço
Sou uma criança insegura
Que às vezes usa salto alto
Sou uma mulher que balança
Sou uma criança que atura
Martha Medeiros
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Todo ser humano é um estranho impar


Eu desconfiava:
todas as histórias em quadrinho são iguais.
Todos os filmes norte-americanos são iguais.
Todos os filmes de todos os países são iguais.
Todos os best-sellers são iguais.
Todos os campeonatos
nacionais e internacionais de futebol são iguais.
Todos os partidos políticos são iguais.
Todas as mulheres que andam na moda são iguais.
Todas as experiências de sexo são iguais.Todos os sonetos,
gazéis, virelais, sextinas e rondós são iguais
e todos, todos os poemas
em verso livre são enfadonhamente iguais.
Todas as guerras do mundo são iguais.
Todas as fomes são iguais.
Todos os amores, iguais iguais iguais.Iguais todos os rompimentos.
A morte é igualíssima.
Todas as criações da natureza são iguais.
Todas as ações, cruéis,
piedosas ou indiferentes, são iguais.Contudo, o homem não é igual a nenhum
outro homem, bicho ou coisa.
Não é igual a nada.
Todo ser humano é um estranho ímpar .Carlos Drummond de Andrade
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
Arte-final
Não basta um grande amor
para fazer poemas.
E o amor dos artistas, não se enganem,
não é mais belo
que o amor da gente.
O grande amante é aquele que silente
se aplica a escrever com o corpo
o que seu corpo deseja e sente.
Uma coisa é a letra,
e outra o
ato,
– quem toma uma por outra
confunde e mente.
Affonso Romano de Sant'Anna
domingo, 3 de janeiro de 2010
É preciso não esquecer
É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.
É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.
O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.
O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.
O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos severos conosco,
pois o resto não nos pertence.
Cecília Meireles
sábado, 2 de janeiro de 2010
Hino dos Reis Magos
Entre a pobreza e a miséria
Em singela habitação
É nascido o Deus-Menino
Para a nossa salvação.
.
Povos e reis, adorai-o,
É nascido o Redentor:
Vem viver, sofrer na terra
Vem morrer por nosso amor.
.
Deixou a corte celeste
E as galas ricas dos céus,
Quem entre os homens é Homem,
Quem entre os anjos é Deus.
.
Povos e reis, adorai-o,
É nascido o Redentor:
Vem viver, sofrer na terra,
Vem morrer por nosso amor.
.
Lá das partes do Oriente,
Deixando os domínios seus,
Vêm os Magos pôr as c'roas,
Aos pés do Menino-Deus..
Povos e reis, adorai-o,
É nascido o Redentor:
Vem viver, sofrer na terra,
Vem morrer por nosso amor.
.
Vem of'recer os presentes
Que a Arábia Feliz produz.
Louvor a Deus nas alturas,
Louvor na terra a Jesus.
.
Povos e reis, adorai-o,
É nascido o Redentor:
Vem viver, sofrer na terra,
Vem morrer por nosso amor.Gonçalves Dias
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Poeminha amoroso
Poeminha amoroso
Este é um poema de amor
tão meigo, tão terno, tão teu...
É uma oferenda aos teus momentos de luta
e de brisa e de céu...
E eu,
quero te servir a poesia
numa concha azul do mar
ou numa cesta de flores do campo.
Talvez tu possas entender o meu amor.
Mas se isso não acontecer, não importa.
Já está declarado e estampado
nas linhas e entrelinhas deste pequeno poema,
o verso; te deixará pasmo, surpreso, perplexo...
eu te amo, perdoa-me, eu te amo...
Cora Coralina (1889-1985)
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Andorinha
Manuel Bandeira
Andorinha lá fora está dizendo:
- "Passei o dia à toa. à toa!"
Andorinha, andorinha,
Minha cantiga é mais triste!
Passei a vida, à toa, à toa...
Imagem Gabriela d'Araujo
Pré-História
Mamãe vestida de rendas
Tocava piano no caos.Uma noite abriu as asas
Cansada de tanto som,
Equilibrou-se no azul,
De tonta não mais olhou
Para mim, para ninguém!
Caiu no álbum de retratos.
Murilo Mendes
terça-feira, 6 de outubro de 2009
O Espelho
... É terrível pensar que a morte está
Não apenas no fim, mas no princípio
Dos elementos vivos da criação. (...)
Murilo Mendes
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
Reflexão n°.1 - Murilo Mendes
Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho
Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio
Nem ama duas vezes a mesma mulher.
Deus de onde tudo deriva
E a circulação e o movimento infinito.
Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido.
terça-feira, 29 de setembro de 2009
HOJE

polidez,boas maneiras.
Por certo,
um Professor de Etiquetas
não presenciou o ato em que fui concebido.
Quando nasci, nasci nu,
ignaro da colocação correta dos dois pontos,
do ponto e vírgula,
e, principalmente, das reticências.
(Como toda gente, aliás...)
Hoje só quero ritmo.
Ritmo no falado e no escrito.
Ritmo, veio-central da mina.
Ritmo, espinha-dorsal do corpo e da mente.
Ritmo na espiral da fala e do poema.
Não está prevista a emissão
de nenhuma “Ordem do dia”.
Está prescrito o protocolo da diplomacia.
AGITPROP – Agitação e propaganda:
Ritmo é o que mais quero pro meu dia-a-dia.
Ápice do ápice.
Alguém acha que ritmo jorra fácil,
pronto rebento do espontaneísmo?
Meu ritmo só é ritmo
quando temperado com ironia.
Respingos de modernidade tardia?
E os pingos d’água
dão saltos bruscos do cano da torneira
e
passam de um ritmo regular
para uma turbulência
aleatória.
Hoje...
Wally Salomão
terça-feira, 15 de setembro de 2009
O céu é sempre o mesmo: as nossas almas
É que se mudam, contemplando-o. É certo.
Umas vezes está cheio de palmas;
Outras vezes é como um deserto.
Quem sabe quando vêm as horas calmas?
Quem sabe se a aventura vem bem perto?
Homem de carne infiel, em vão espalmas
As tuas asas pelo céu aberto.
O que nos cerca é a fugitiva imagem
Do que sentimos, do que longe vemos,
Sempre sofrendo, sempre em vassalagem,
A vida é um barco a voar. Soltem-se os remos…
Cada um de nós da morte é servo e pajem:
Somos feliz só porque morremos.
Alphonsus Guimarães
domingo, 6 de setembro de 2009
De Que São Feitos os Dias?
- De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.
Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inactuais esperanças.
De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
- do medo que encadeia
todas essas mudanças.
Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças...
Cecília Meireles, in 'Canções'
sábado, 22 de agosto de 2009
Eu adoro voar
“Gosto dos venenos mais lentos!
Das bebidas mais fortes!
Das drogas mais poderosas!
Dos cafés mais amargos!
Tenho um apetite voraz.
E os delírios mais loucos.
Você pode até me empurrar de um penhasco
que eu vou dizer:
E daí? Eu adoro voar!".
[Clarice Lispector]
quinta-feira, 30 de abril de 2009
quarta-feira, 29 de abril de 2009
Depois, o que toco às vezes floresce
e os outros podem pegar com as duas mãos."
(Clarice Lispector)
quarta-feira, 22 de abril de 2009
22 de abril - Descobrimento do Brasil
A Pátria
(Olávio Bilac)
Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!
Criança! não verás nenhum país como este!
Olha que céu! que mar! que rios! que floresta!
A Natureza, aqui, perpetuamente em festa,
É um seio de mãe a transbordar carinhos.
Vê que vida há no chão! vê que vida há nos ninhos,
Que se balançam no ar, entre os ramos inquietos!
Vê que luz, que calor, que multidão de insetos!
Vê que grande extensão de matas,
onde impera Fecunda e luminosa,
a eterna primavera!
Boa terra!
jamais negou a quem trabalha
O pão que mata a fome, o teto que agasalha...
Quem com o seu suor a fecunda e umedece,
Vê pago o seu esforço, e é feliz, e enriquece!
Criança! não verás país nenhum como este:
Imita na grandeza a terra em que nasceste!"




















