sábado, 7 de junho de 2008

BROCARDOS JURÍDICOS

De acordo com o Dicionário Jurídico Brasileiro, compilado por Marcos Cláudio Acquaviva, a palavra 'brocardo', curiosamente, nao tem origem latina. É o resultado da latinização do nome de Burckard, um jurista que era bispo da cidade inglesa de Worms no século XI, e que foi o compilador de vinte volumes de regras de direito eclesiástico, tornando-se assim um padrão de formulação jurídica também no direito não eclesiástico.
Os brocardos resumem uma secular experiência jurídica, semelhante aos provérbios e ditados populares, que encerram a sabedoria de uma comunidade. Embora nao tenham força de lei, no entanto a sua credibilidade serve de orientação para o intérprete e o estudante, no momento de compreender e aplicar a norma. O fato de serem escritos, originariamente, em latim se deve a esta tradição do direito ser escrito nesta língua desde os romanos, passando pelo direito eclesiástico.
Os brocardos acumulam também indiscutível conteúdo didático, ao sintetizarem em poucas palavras um conceito universalmente aceito. Como toda definição, eles não podem ser entendidos estritamente, mas precisam sempre ser ajustados às situações concretas, sobretudo tendo-se em conta o grande dinamismo das relações sociais, que fundamentam as relações jurídicas. Sobre estes, assim como sobre as normas positivadas, deve sempre prevalecer o senso da justiça, sem o qual todo direito fica esvasiado.
Provavelmente, a sua melhor aplicação ocorra quando existem as lacunas legais, porque nenhum juiz poderá deixar de decidir à falta de uma norma escrita, recorrendo nestes casos à analogia, aos costumes, aos princípios gerais do Direito, ou seja, no meio de tudo isso estão subentendidos os brocardos jurídicos.

FAVELÁRIO NACIONAL - Drummond









Quem sou eu para te cantar, favela,

Que cantas em mim e para ninguém

a noite inteira de sexta-feira

e a noite inteira de sábado

E nos desconheces,

como igualmente não te conhecemos?

Sei apenas do teu mau cheiro:

Baixou em mim na viração,

direto, rápido, telegrama nasal

anunciando morte... melhor, tua vida....

Aqui só vive gente,

bicho nenhum tem essa coragem....

Tenho medo. Medo de ti, sem te conhecer,

Medo só de te sentir, encravada

Favela, erisipela, mal-do-monte

Na coxa flava do Rio de Janeiro.

Medo: não de tua lâmina nem de teu revólver

nem de tua manha nem de teu olhar.

Medo de que sintas como sou culpado

e culpados somos

de pouca ou nenhuma irmandade.

Custa ser irmão,

custa abandonar nossos privilégios

e traçar a plantada justa igualdade.

Somos desiguais

e queremos ser

sempre desiguais.

E queremos ser
.
bonzinhos benévolos

comedidamente

sociologicamente

mui bem comportados.

Mas, favela, ciao,

que este nosso papo

está ficando tão desagradável.

vês que perdi o tom

e a empáfia do começo?...

*********
P.S Estive, com minha familia, recentemente, no Rio de Janeiro, visitamos Maracanã, Pão de Açucar, Jardim Botanico, Copacabana, entre outras atrações que fazem do Rio a Cidade Maravilhosa. Favela? Só vi ao longe. Como disse o poeta: Tive medo...

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Poema - Cântico IV





Tu tens um medo: Acabar.

Não vês que acabas todo dia.

Que morres no amor.

Na tristeza.

Na dúvida.

No desejo.

Que te renovas todo dia.

No amor.

Na tristeza.

Na dúvida.

No desejo.

Que és sempre outro.

Que és sempre o mesmo.

Que morrerás por idades imensas.
.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno .

Cecilia Meireles

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Um só Fernando e algumas Pessoas


O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...


Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
.
Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...
.
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...
.
Alberto Caeiro, em "O Guardador de Rebanhos"
8-3-1914

quarta-feira, 4 de junho de 2008

O HOMEM e a MULHER





O homem é a mais elevada das criaturas. A mulher é o mais sublime dos ideais. Deus fez para o homem um trono; para a mulher um altar. O trono exalta; o altar santifica. O homem é o cérebro; a mulher o coração, o amor. A luz fecunda; o amor ressuscita. O homem é o gênio; a mulher o anjo. O gênio é imensurável; o anjo indefinível. A aspiração do homem é a suprema glória; A aspiração da mulher, a virtude extrema. A glória traduz grandeza; a virtude traduz divindade. O homem tem a supremacia; a mulher a preferência. A supremacia representa força.A preferência representa o direito. O homem é forte pela razão; a mulher invencível pelas lágrimas. A razão convence; a lágrima comove. O homem é capaz de todos os heroísmos; a mulher de todos os martírios. O heroísmo enobrece; os martírios sublimam. O homem é o código; a mulher o evangelho. O código corrige; o evangelho aperfeiçoa. O homem é o templo; a mulher, um sacrário. Ante o templo, nos descobrimos; Ante o sacrário ajoelhamo-nos. O homem pensa; a mulher sonha. Pensar é ter cérebro; Sonhar é ter na fronte uma auréola. O homem é um oceano; a mulher um lago. O oceano tem a pérola que embeleza; O lago tem a poesia que deslumbra. O homem é a águia que voa; a mulher o rouxinol que canta. Voar é dominar o espaço; cantar é conquistar a alma. O homem tem um fanal; a consciência; A mulher tem uma estrela: a esperança. O fanal guia, a esperança salva. Enfim ...O homem está colocado onde termina a terra; a mulher onde começa o céu...




Victor Hugo

A Abelha e a flor


Ide para os vossos campos e jardins e aprendereis que o prazer da abelha consiste em retirar o mel da flor. Mas também a flor tem prazer em dar o seu mel á abelha. Pois para a abelha a flor é uma fonte de vida. E para a flor a abelha é mensageira de amor. E, para ambas, abelha e flor, o dar e o receber com prazer é uma necessidade e um êxtase.


Kalil Gibran

terça-feira, 3 de junho de 2008

Tocando em frente


Intérprete: Almir Satter

Ando devagar porque já tive pressa

E levo esse sorriso porque já chorei demais

Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe
Só levo a certeza de que muito pouco eu sei

Ou nada sei

Conhecer as manhas e as manhãs,

O sabor das massas e das maçãs,

É preciso amor pra poder pulsar,

É preciso paz pra poder sorrir,

É preciso a chuva para florir

Penso que cumprir a vida seja simplesmente

Compreender a marcha e ir tocando em frente

Como um velho boiadeiro levando a boiada

Eu vou tocando dias pela longa estrada eu vou

Estrada eu sou

Conhecer as manhas e as manhãs,

O sabor das massas e das maçãs,

É preciso amor pra poder pulsar,

É preciso paz pra poder sorrir,

É preciso a chuva para florir

Todo mundo ama um dia todo mundo chora,

Um dia a gente chega, no outro vai embora

Cada um de nós compõe a sua história

Cada ser em si carrega o dom de ser capaz

E ser feliz…

 
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