quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Quando
Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.

Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta.
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.

Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Urgentemente


É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
é urgente destruir certas palavras.
odio, solidão e crueldade,
alguns lamentos
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Eugenio de Andrade


domingo, 6 de setembro de 2009

Vilarejo

De Que São Feitos os Dias?

De que são feitos os dias?
- De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inactuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
- do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças...

Cecília Meireles, in 'Canções'


quinta-feira, 3 de setembro de 2009




Alguns guardam o Domingo indo à igreja
Eu o guardo ficando em casa
Tendo um sabiá como cantor

E um pomar por santuário.

Alguns guardam o Domingo em vestes brancas

Mas eu só uso minhas asas

E ao invés do repicar dos sinos na igreja
nosso pássaro canta na palmeira.

É Deus que está pregando, pregador admirável

E o seu sermão é sempre curto.

Assim, ao invés de chegar ao Céu, só no final
eu o encontro o tempo todo no quintal.


Emily Dickinson
tradução de Manuel Bandeira


Tinta


Meu poema está morto do enfarto

sem rima, sem beleza, sozinho no quarto.

A caneta é só instinto: traço e rabisco:

"Sendo velado na minh’alma…sem aprisco"


Tendo que sorrir para os corvos

Eu curvo, sem rima, sem beleza, e o ar sorvo
vejo o quanto é absurdo, triste ficar o meu eu,

pelo poema de rima pobre que feneceu ,


E quase caçando palavras no vocabulário limitado,
De tão cansado que estou, exausto e alquebrado
Vivo pedindo p'ro branco papel me ajudar, e absorto

Caem lágrimas no branco papel: poema natimorto.


Zynn Carvalho e Roselee Salles


quarta-feira, 2 de setembro de 2009


Oração de S.Francisco

Senhor,fazei de mim um instrumento de vossa paz
Onde houver ódio que eu leve amor
Onde houver ofensa que eu leve o perdão
Onde houver discórdia que eu leve a união
Onde houver dúvida que eu leve a fé.

Onde houver erro que eu leve a verdade
Onde houver desespero que eu leve a esperança
Onde houver tristeza que eu leve a alegria
Onde houver trevas que eu leve a luz

O mestre fazei que eu procure mais
Consolar que ser consolado,
Compreender que ser compreendido,
Amar e ser amado,
Pois é dando que se recebe
É perdoando que se é perdoado
E é morrendo que se vive para a vida eterna ganhar

 
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